Diálogo de Mãe e Filha

Diálogo de Mãe e Filha

04/05/2012 Sem categoria Comentários desativados

 Lucy Duró Matos Andrade Silva

Revista Aprendizagem – Editora Melo

Este é o registro de um diálogo entre mãe e filha. A filha, uma jovem de 21 anos, estuda em uma universidade localizada em um país da Europa e cursa um semestre de Administração de Empresas. Essa Universidade, que não é diferente de algumas aqui do Brasil, formulou uma única prova com critério de aprovação ou reprovação definitiva. Foi cobrado o conteúdo de todo o semestre, com inúmeras perguntas, e concedido 60 minutos, ou seja, 1 hora, para a sua resolução. As considerações sobre o tema serão indicadas a seguir.

A educação, por intermédio da relação ensino-aprendizagem, promove o desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança, do jovem, enfim, do ser humano em geral, visando à sua melhor integração social. A aprendizagem é o meio pelo qual o indivíduo apropria-se do conhecimento que, por sua vez, é construído histórico-culturalmente por intermédio das instituições sociais. Portanto, a formação humana transcorre em um processo de mediação na relação do homem e meio cultural (REGO, 1996).

Se o meio cultural é a condição prévia de constituição do humano, todos aqueles que estabelecem uma relação com o meio têm condições de aprender, de se apropriar do conhecimento, de se desenvolver. Se há no indivíduo todas as condições de aprender, a instituição educacional como espaço socializador e promotor de conhecimento deve garantir que isso aconteça, independente do nível em que atue.

Entretanto, há reconhecidamente uma carência de recursos, sejam eles de ordem profissional, metodológica, estrutural, ou mesmo epistemológica, impedindo algumas crianças, jovens e, por que não dizer, adultos, de se apropriarem do conhecimento de forma integral e democrática.

É visível a necessidade de uma análise crítica do comportamento de instituições educacionais, tanto de educação básica, como de ensino superior, cujo propósito ainda é a transferência enciclopédica (DEMO, 1994). É possível observar, dentro dessa perspectiva, a concepção educacional ditada por Locke (1690) que sugeria o aluno como uma tábula rasa, apenas recebendo o conhecimento de forma unilateral. Em uma versão contemporânea, temos o conceito de “educação bancária” trazido por Freire (1979), na qual o conhecimento é depositado na cabeça do aluno e depois sacado no dia da prova, como se isso fosse garantia de aprendizagem.

O incentivo à memorização com vistas à realização de uma “prova” tem função antipedagógica e, muitas vezes, afasta o aluno do conhecimento. O processo ensino-aprendizagem exige avaliação como resultado de aprimoramento de qualquer processo de construção humana. Infelizmente, na aprendizagem escolar, em nível básico ou superior, ela perdeu sua posição de direito conquistado já que, subjacente ao seu exercício, houve uma inversão de valores que a colocou como prática com um fim em si mesma (PARO, 2003).

 

Filha: - Oi mãe, tudo bem?

Mãe: - Oi, querida! Como você está?

Filha: - Sabe a prova de hoje? Não passei.

Mãe: - Sem o menor problema.

Filha: - Foi a sensação mais frustrante do meu semestre inteiro.

Mãe: - Fique tranquila!

Filha: - Eu estou estudando para essa prova há quase 15 dias, sem parar. Esta noite eu dormi uma hora.

Mãe: - Filha, eu entendo o seu nível de frustração, foi injusto o que aconteceu com você.

Filha: - Foi, realmente. Este momento está sendo muito difícil.

Mãe: - Você é uma menina maravilhosa em todos os sentidos, não se permita derrotar por uma simples avaliação. Há muito mais do que isso. Aliás, nem sei se podemos chamar uma prova como essa de instrumento de avaliação. Eu fico tentando entender como um professor pode avaliar o resultado de um período inteiro de dedicação em uma prova de alguns minutos.

Filha: - Eu sei, mãe. Sei lá o que pensar, estou tão cansada que nem tenho mais cabeça.

Mãe: - Meu amor, você acha mesmo que é necessário ficar assim? Você está em plena juventude, um momento tão importante. Não exija demais de você. Curta, brinque, apaixone-se… Filha, você conhece Fernando Pessoa, leia algumas poesias dele. Você saberá do que eu estou falando. Vida, filha, apenas isso, vida…é o que importa… É isso! Esse é o seu momento. Você tem uma vida inteira pela frente. Dê tempo ao tempo. Infelizmente, a vida não nos confere, pelo menos em curto prazo, experiência suficiente para não cairmos, mas acredito que os meus tombos são menos frequentes. Quero dizer que eu não tenho como garantir respostas sobre o que é certo ou errado porque isso é tão singular, mas posso garantir que há algo muito maior que uma simples “prova”, que na verdade não prova nada. Você bem sabe o que eu penso em relação ao sistema educacional. Em alguns momentos ele é perverso. Não é justo com você, entende?

Filha: - Você tem razão, mas é que é difícil fazer diferente.

Mãe: – E eu sei do que você fala quando diz que é difícil fazer diferente porque eu tenho um nível semelhante de cobrança, aprendi assim, na verdade, sinto ter lhe passado esse aprendizado. Mas lembre-se, filha, estamos o tempo todo fazendo escolhas.

Filha: - Isso é uma coisa que eu tenho de mudar. Concordo! Obrigada pelas palavras, mãe!

Mãe: - A questão é o quanto isso é representativo na sua vida. O quanto isso, de fato, vai afetar o seu futuro. A vida é muito, mas muito valiosa. Vá fazer brigadeiro e brincar na chuva com a suas amigas… curta… Você sabe que eu amo você incondicionalmente. Fico feliz com os seus resultados, você bem sabe, mas fico muito mais feliz com o seu caráter e os seus valores.

Filha: - Obrigada, mãe! Foi uma pena você não estar online na hora em que eu saí da prova porque falar com você sempre me deixa muito melhor.

Mãe: - Fico feliz que esteja melhor.

Filha:  Foi muito bom ter falado com você. Eu vou dormir um pouco, porque estou exausta.

Mãe: - Se entregar de cabeça, isso você já faz. Os resultados? Não importa. A sua parte está cumprida! Fique com Deus. Saiba que a mamãe estará sempre ao seu lado, pode contar com isso.

Filha: – Te amo muito, muito!

Mãe: - Durma o sono dos anjos, você merece. Não deixe que nenhum pensamento arranque isso de você.

Filha: - Pois é, você tem razão! Hoje é meu último dia aqui no apartamento com todas as meninas. Faremos um jantar mais tarde.

Mãe: – Que delícia! Vire a página minha querida e aproveite com as suas amigas porque é isso o que realmente fica, pode ter certeza, é isso que realmente importa… Super beijo!

Filha: - Mas é mesmo! Pode deixar!

Mãe: - Amo você mais do que nunca.

Filha: - Beijo, mãe.

 

É importante lembrar que existe uma enorme contribuição da Ciência, para superar algumas práticas pedagógicas de origem tradicional. Luckesi(1994), como uma das maiores autoridades sobre o tema avaliação da aprendizagem,  refere que a avaliação é fundamental no processo de escolarização, sem ela não é possível tomar decisões. “A avaliação pode ser caracterizada como uma forma de ajuizamento de qualidade do objeto avaliado, fator que implica uma tomada de posição a respeito do mesmo, para aceitá-lo ou para transformá-lo”. (Luckesi, 1994, p. 33).  Portanto, a avaliação é um componente do ato pedagógico da maior relevância porque oferece subsídios para o entendimento de todos os fatores envolvidos na aprendizagem.

Entretanto, não se pode dizer o mesmo da prova,  geralmente com fim em si mesma, examinando de forma pontual e descontextualizada o que o aluno pode produzir naquele exato momento. O exame pode ser um verdadeiro instrumento de tortura usado apenas para aprovar ou reprovar o aluno, tanto na educação básica, como no ensino superior. “O ato de examinar encerra-se com a classificação do estudante.”(Luckesi, 2011, p.427)

“O fracasso ou o sucesso no processo de aprendizagem escolar é muito menos determinado por questões individuais do que por mecanismos institucionais e políticos.”(Souza, 2010, p.61).

 

Lucy Duró

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